Penso assim: Tenho outros dentro de
mim, mais ou menos como Fernando Pessoa definiu, e esses outros
precisam/desejam se manifestar. Acho que tenho controle sobre eles ou, quem
sabe, eu seja o boneco de ensaio deles achando que os controlo e, na verdade, o
personagem seja eu... Tem um escritor doido/masoquista construindo meu
roteiro.
Agora, pessoa comum... Não sei dizer,
até porque não acho nenhuma pessoa comum, mas na vida pessoal não flerto com
esses questionamentos, de jeito nenhum. Brindo a vida porque não sei o que tem
do outro lado da cortina, então, fico observando o que meus personagens trazem
de lá, relato e reparo no que sinto, verdadeiramente, é o que vai importar no
final das contas.
Poesia... Sempre fui um incorrigível
apaixonado, desde "frangote". Lia muito, amava Neruda ao 10 anos de
idade, Drummond aos 11 e Luis Fernando Veríssimo (que não tem nada a ver com
poesia) até hoje. Sou exageradamente autocrítico, por isso não gosto de ler
poesia, mas ainda faço. Gosto da linguagem curta, começo, meio e fim,
rapidinho, com inteligência e estilo. Aos 17 anos publiquei um livro de poesias
(horroroso) e depois mais dois (melhores, mas não menos descartáveis). Acho que
é isso.
Espero deixar uma mensagem de transformação.
Se o que eu escrevo não puder cumprir esse papel de questionamento para aqueles
que leem, se não puder ajudá-los a melhorar como pessoas, pelo menos a tentarem
melhorar, então minha escrita não tem a menor serventia. Só espero isso da
literatura, não busco sucesso pessoal, busco mudança, transformação, um degrau
de cada vez, pra cima.
Sempre sonhei em publicar
livros, confesso que tive mais fervor por essa ideia, mas hoje, não. Parece
mais natural que isso ocorra agora, não sei explicar, porque antes era por
vaidade, mas hoje não. Não tenho a ilusão de ser um Best Sellers ou dar uma entrevista no Programa do Jô (rsrs). Não
tenho a vaidade de observar pessoas olhando para mim com cara de "ó, lá
vai o intelectual" ou "vamos perguntar pra ele, ele certamente terá
uma resposta inteligente para isso". Isso deixou de ter importância, não
sei se defino como amadurecimento ou desapego. Quando recebi o convite da Modo,
fiquei mais surpreso que feliz. Havia acabado de publicar um outro livro e me
pediram pra analisar outras duas obras. Surpreso, porque não tinha planos para
as obras solicitadas e mais ainda, escolheram exatamente a que eu achei que não
seria escolhida (rsrs). Confesso que fui ficando feliz devagarzinho, absorvendo
a coisa toda, conhecendo pessoas interessantes e interessadas, saindo do meu
mundinho solitário de escritor. Não estou ansioso, como era de se esperar, mas
apreensivo com o próximo passo, cuidadoso, porque aprendi que é um de cada vez
pra se alcançar o que se pretende. E grato, pela oportunidade de estar num time
forte, vencedor. Não me sinto realizado, sempre serei um eterno inconformado
porque se fiz ou se fizer algo extraordinário com certeza acharei que poderia
ter sido melhor, não busco a perfeição, isso é para os prepotentes, busco ser
alguém melhor, dia a dia.
Escrever é um dom, se é para
definir, para mim é isso. Tenho a intrigante sensação de que mais que
observador, sou observado, de que não escrevo nada, só transcrevo o que alguma
voz me dita, a coisa do criador/criatura mesmo. Não consigo imaginar minha vida
longe das letras, desde muito menino tem sido assim. Não faço ideia de como
seria a minha vida sem a escrita, sem a inspiração, não consigo vislumbrar essa
possibilidade. Sou o que sou pelo que li, pelo que fragmentei das obras que
visitei, que me deram a condição de discernir valores bons e ruins. Sou o cara
que escreve aquilo que sente, mesmo se aquilo que escreve, seja o que sente,
quem me sopra nos ouvidos o que escrevo. Confuso? Não é não, leia de novo (rsrs).
Eu gostava de desenhar, quando menino.
Gostava de tocar piano mais adiante. Sinceramente não sei responder se há
diferença, pelo que entendi da pergunta, de sentimentos entre um e outro. Um
escritor, um escultor, um músico, um doutor, um professor... Havendo amor
sincero, há entrega. Havendo entrega e amor, há satisfação pessoal, que creio
ser o que todos procuram. Estar satisfeito com aquilo que produziu é um passo
fundamental para agradar aquele que vai consumir sua obra, seja ela qual for.
Costumava classificar meus escritos de
"filhos". De tanto ouvir dizer que os pais não fazem diferença entre
os filhos, descobri que isso é mentira (rsrs). Então parei de chamar meus
filhos de escritos (?) rsrs. São filhos sim e sim, fazemos distinção porque
nenhum é igual ao outro, circunstancias e oportunidades mudam tudo. Saíram de
mim, portanto, são meus filhos e me identifico com todos. "Eu escolhi você
para viver minha história" é o livro que mais me identifico por ser mais
pessoal, forte e testemunhal.
Todas as histórias já estão prontas em
algum lugar. Ninguém me convence do contrário, nem tente (rsrs). Essa afirmação
é sadia e estudada, acreditem. O autor precisa sentir, obviamente, aquilo que
escreve, do contrário é melhor ser roteirista, se gosta de escrever, mas não
sente. Ele vive o que escreve, não consigo imaginar de outra maneira. Ele não
precisa estar na Bósnia para escrever sobre o massacre ocorrido lá, mas ele
sente a dor, ele quase toca nos escombros. É isso.
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A obra |
“Uma estação de trem. Um sonho que se repete. Uma lembrança do que não
se viveu. O conhecido desconhecido. Uma conspiração… Uma história de amor
que embrulha os tempos num único pacote. Vidas separadas. Um amor não
resolvido, cortado pelas armas dos vários passados.”